A Palavra Livre de Mortágua
Quinta-feira, 9 de Março de 2006
Difculdades do Funcionamento Associativo

Deparamo-nos, em Mortágua, com um grande número de Associações. É de louvar a iniciativa de quem se propõe a dar de si num movimento colectivo como é o associativismo. O trabalho colectivo e filantropo encontra, talvez, no associativismo o seu expoente máximo. Mas todos sabemos que este altruísmo se depara com diversas dificuldades.

A vida, nos dias que correm, pouco ou nenhum tempo nos deixa para nos dedicarmos a este tipo de actividade. Para além desta falta de tempo os dirigentes associativos vêem as suas ideias e desejos de actividade esbarrar muitas vezes numa falta de recursos financeiros bem como na ausência do know-how necessário. Aliado tudo isto há ainda um diminuído número de pessoas que estejam disponíveis a dar o seu tempo para a organização de actividades que por vezes, e não sendo isto desfeita a quem nelas se empenha, não terão um interesse tão elevado quanto isso.

Temos aqui, portanto, identificados três handicaps que impedem que as Associações tenham um melhor e mais profícuo funcionamento. São eles: financiamento, ausência de know-how e falta de disponibilidade humana.

Estando enumeradas dificuldades encontradas pelas associações resta sobre elas dissertar. Assim, da última para a primeira:

1. Como já referido o estilo de vida actual dificilmente se coaduna com a participação intensa que a vida associativa exige. Sem a disponibilidade exigida há muitos pequenas tarefas (essencialmente burocráticas) que ficam por fazer, obrigando assim as Associações a um pesado e moroso arrastar que condiciona a sua actividade e a sua capacidade de pôr em prática mais e novas actividades.

De entre essas tarefas burocráticas enumeram-se as mais usuais:

·        Redacção de Actas;

·        Elaboração de Projectos;

·        Procedimentos com as entidades bancárias;

·        Cobrança de cotas;

·        Apuramento de contas;

Assim o que realmente interessa a uma qualquer associação, que é o promover de actividades ou o criar condições quer aos seus associados quer ao público em geral poderá ficar obstruída pelo processo burocrático que faz parte da gestão associativa. No geral o que acontece é o contrário. O que acontece é o processo burocrático ser posto de parte em prol da criação de acções.

Esta impossibilidade de a tudo acorrer leva a que uma grande maioria das Associações do nosso Concelho tenham uma “escrita” perfeitamente desorganizada. Inclusive algumas das Associações temáticas (e não dizendo que são estas, como o TEM, o Orfeão Polifónico, o Coralinho e outras) que apresentam uma produção regular de eventos e uma actividade constante, encontrarão dificuldades em manter organizado um livro de actas ou em cobrar as suas cotas.

Mas grande parte desta dificuldade advém não só da ausência de tempo, mas também da falta de conhecimentos. Na sua grande maioria, para não dizer na totalidade, os  dirigentes associativos deste concelho são uns “carolas” que decidiram abdicar um pouco da sua vida para poderem fazer algo em prol dos outros ou em prol da comunidade. E claro que à margem da vida profissional e pessoal que cada um tem que levar pouco acaba por ser o tempo que sobra.

2. Para tudo é necessário saber. Nada se faz sem o conhecimento necessário ao desempenho das tarefas que se executam. E os dirigentes associativos do nosso concelho desconhecem muitas das vezes as leis que influem no funcionamento de uma Associação, assim como algum dos tramites para o seu funcionamento.

Num tempo em que os dirigentes associativos já podem responder criminalmente por erros de gestão na direcção associativa é urgente formar e informar estas pessoas para que, na nobre tentativa de levar as coisas avante, não caiam na esparrela ou no erro de estarem a agir contra a lei.

Tendo em conta os rios dinheiros para todo o tipo de formações, urge criar um Programa Municipal de Formação Associativa que leve a estas pessoas o conhecimento necessário ao desempenho das suas funções enquanto Dirigentes Associativos. Há que dar a conhecer a estas pessoas todos os procedimentos legais e funcionais inerentes ao funcionamento de uma Associação.

Paralelamente a esta formação deve ser criada a já esquecida Federação Associativa de Mortágua (FAM). Será esta entidade a ter o enquadramento necessário para, além dirigir tal  programa de formação, conduzir um apoio de secretariado às associações locais. Com um pequeno grupo de funcionários será possível dar cobertura às necessidades administrativas das Associações. De entre este apoio podemos contar a cobrança de quotas, o apoio à condução de reuniões e à elaboração de actas, a verificação da legalidade e conformidade das decisões tomadas, mesmo face ao aprovado pelas respectivas Assembleias Gerais.

Assim se poderá juntar o “saber fazer” à vontade, por vezes orfã, que alguns têm em fazer mais e melhor. Através de uma espécie de profissionalização do dirigente associativo, com o apoio de uma estrutura fixa como a FAM, poderemos contar no nosso concelho com mais e melhor actividade associativa.

3. Do financiamento pode-se, com alguma segurança, afiançar que o sistema que actualmente existe em Mortágua não é nem de perto nem de longe o melhor. A dependência quase em exclusivo do financiamento autárquico é uma má prática e com  consequências que se podem revelar nefastas, se não mesmo letais, para o movimento associativo.

Não se pretende aqui afirmar que as Autarquias devem ser desresponsabilizadas do seu papel financiador do movimento Associativo Local. Pretende-se tão só alertar para alguns erros de procedimento que se devem ter em conta para evitar sérias ameaças futuras ao Associativismo.

A dependência exclusiva de uma fonte de financiamento pode levar a que, das duas uma: se criem vícios de forma, ou ao livre arbítrio da entidade financiadora.

Não se toma aqui a Câmara Municipal por uma entidade estilo cata-vento, que tão depressa toma uma posição como vira e toma outra. Nada disso. Trata-se sim de entender que um organismo como uma Câmara Municipal é, e tem que ser, gerido de acordo com prioridades bem definidas. Prioridades dessas que, até agora, têm permitido um financiar do Associativismo Local, mas que podem no futuro não permitir. É do conhecimento público o aumento de responsabilidades administrativas e financeiras de que as Autarquias estão a ser alvo. Aumento esse nem sempre correspondido em dotação orçamental por parte do Estado.

Por outro lado sem o já referido apoio de uma entidade exterior à própria Associação, algumas delas de pequena dimensão, é difícil conseguir efectuar a recolha da quotizações dos associados. Esta, que não sendo por vezes uma grande receita, é por certo uma forma de ir garantindo algum financiamento regular por parte das Associações.

Sem autonomia financeira as actividades das Associações ficam, salvo raras excepções, dependentes dos pontuais, ainda que praticamente regulares, subsídios da Câmara Municipal. Subsídios estes atribuídos pela participação na Feira das Associações e no Torneio de Futebol Inter-Associativo. Havia ainda o Corso Carnavalesco que durante muitos anos animou o nosso Domingo Gordo, possuindo já alguns dos participantes alguma qualidade.

Conclusão. A certo tempo a Câmara tomou para si a organização subsidiada desta festa e o Carnaval Mortáguense teve um aumento em dimensão e em qualidade. Passados alguns anos a liderar a organização deste evento a Câmara decide entregar esta responsabilidade de novo às Associações. Foi como quem jogou um filho ainda mal formado à rua e lhe tenha pedido para se fazer à vida. O resultado só podia ser o que se verificou. Já sem experiência na organização de eventos de dimensão inter-associativa a comissão criada fracassou no objectivo de levar avante o Corso Carnavalesco. Há que questionar até que ponto a ausência ou incerteza do “prémio” camarário não terá influenciado negativamente o decurso das coisas.

E assim este ano, pela quarta vez consecutiva, o Entrudo não alegrou o nosso Domingo Gordo.

É urgente descobrir o que correu mal e tentar corrigir as fraquezas para que o mesmo não venha também a acontecer com a Feira das Associações ou com outra qualquer actividade associativa neste Concelho. As associações têm que aprender a ser mais autónomas, e os seus dirigente mais capazes e eficazes na condução das suas direcções. Pudemos, face ao exposto, concluir que dependência exclusiva da organização e financiamentos autárquicos é prejudicial à saúde do Movimento Associativo.

Crie-se então a FAM e inicie-se a emancipação e abra-se o caminho para a idade adulta das Associações Mortáguense.



publicado por Mário Lobo às 21:05
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