A Palavra Livre de Mortágua
Sexta-feira, 7 de Maio de 2010
Estórias do Maio

Havia um carpinteiro que trabalhava na sua pequena carpintaria. Fazia mesas, cadeira, bancos, armários, portas... enfim, de tudo um pouco.

Certo dia um sujeito bem apresentado, acabadinho de sair duma qualquer universidade, entra pela sua modesta carpintaria dentro:

"Corre bem o negócio?" – perguntou ao carpinteiro.

"Não me posso queixar. Muito trabalho, a coisa vai andando."

"E quem lhe trata dos papeis? Contas, encomendas, fornecedores e isso tudo." – torna a perguntar o estranho.

"Sou eu, pois então! Ao fim do dia"

O estudado universitário elucidou o carpinteiro sobre as vantagens de ter alguém que se preocupasse com a gestão do seu negócio, dando-lhe assim mais tempo para se dedicar à sua arte. Que estava precisamente à procura de emprego na área de gestão. Após uma conversa o carpinteiro acede a contratar o gestor.

Algum tempo passado o gestor da modesta carpintaria conclui que talvez contratar um vendedor não seria pior. Pois assim o carpinteiro trataria da produção, o gestor da gestão e um vendador garantiria a existência de encomendas.

Visto todos eles estarem ocupados nas suas funções, a contratação dum funcionário administrativo que tratasse do expediente diário revelou-se uma necessidade.

Com uma empresa em fraca expansão e com o aumento da complexidade do processo contabilístico a prossegui-se para contratação dum guarda-livros.

Seguiram-se administrativos e gestores a um ritmo acelerado pois a empresa ia em franca expansão.

E o carpinteiro cada vez mais livre para se dedicar às suas cadeiras, portas e armários.

Como não há fartura que não dê em miséria os tempos começaram a apertar, e os lucros a descer.

Havia que fazer economias.

Uma consultoria externa, daquelas efectuadas por especialistas bem pagos, concluiu que a carpintaria devia reestruturar-se. E assim foi.

Após analisada a estrutura desta empresa conclui-se que era o carpinteiro o empregado menos qualificado, como tal o mais natural de ser substituído. E assim fizeram.

Toca de despedir o carpinteiro.

Sem carpinteiro a empresa ficou sem produção e, claro, fechou.

 

Esta estorieta demonstra bem o funcionamento da "economia moderna".

O carpinteiro continuou a produzir objectos da sua arte, tal como fazia antes. Mas todo a máquina artifical que lhe montaram em volta, e que mais não fazia que sustentar-se do seu trabalho, acabou por ser tão grande que acabou com todo o negócio.

No "mundo real" as empresas vêem o seu valor na Bolsa subir e descer sem que o seu ritmo de trabalho se altere. Porque deve uma fábrica ver o seu valor descer ou subir na Bolsa de Valores se os seus empregados continua a trabalhar de manhã à noite e a produzir a mesma quantidade de carros, ou rolhas, ou pares de calças, ou seja lá o que for?

Só há uma razão para isso acontecer. É alguém estar a brincar com o dinheiro gerado pelos trabalhadores quando desempenham o seu ofício. Porque é o trabalhador que gera riqueza.

São os trabalhadores da construção civil que constroem as fábricas.

São os trabalhadores da área da mecânica que montam as máquinas que esta precisa.

São os trabalhadores fabris que operam as máquinas desta fábrica.

São os trabalhadores da expedição que empacotam e remetem ao cliente as mercadorias produzidas.

São os trabalhadores dos transportes que levam as mercadorias ao seu destino.

São os trabalhadores dos comércios que vendes estes produtos fabris.

E por fim, são todos estes trabalhadores que, com os salários conseguidos do seu trabalho, vão às lojas e compram estes produtos.

O elo comum a toda a cadeia é o trabalhador. O elo final de toda a cadeia é o trabalhador. É ele na sua situação de consumidor final que paga por todo o processo.

Se retirarmos poder de compra aos trabalhadores, através da não valorização dos seus salários, estes enquanto consumidores deixam de poder comprar. Os comércios deixam de vender, por isso deixem de encomendas, por isso não há necessidade para transportar mercadorias. Se não há encomendas não há trabalho na expedição de encomendas da fábrica nem trabalho para os operários fabris. Se não há trabalho para estes não há necessidade de construir novas máquinas nem novas fábricas.

Por fim só quero deixar uma questão: quando deixarmos de ter dinheiro para comprar os produtos produzidos nas nossas fábricas, para quem produzem elas esses produtos?


sinto-me:

publicado por Mário Lobo às 12:00
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