A Palavra Livre de Mortágua
Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2005
Mortágua e o Plano Tecnológico

Somos confrontados, numa base quase diária, com mais uma expressão da moda. Mais uma daquelas que todos nós acabamos por repetir e proclamar aos quatro ventos sem realmente perceber o que querem, ou o que deveriam querer dizer. Essa expressão é “Choque Tecnológico”. Uma programa/ideia que visa projectar o nosso País para um mundo tecnologicamente desenvolvido. Ora, este programa, tal como todos os outros, quando desprovido de verdadeira percepção do País real não tem grande futuro ou aplicabilidade, pelo menos não no que toca a melhoria das condições da população em geral. Mas antes deste Choque Tecnológico o governo já tinha um programa para o desenvolvimento tecnológico do País. O Programa Operacional para a Sociedade da Informação, parte integrante do III Quadro Comunitário de Apoio.

Na senda de disciplinarmente apoiar um governo de cuja a ideologia partilha, o Executivo Camarário de Mortágua não deixa de por em prática toda uma série de medidas. Destas medidas surge-nos agora em forma de inquérito no site da Autarquia a ideia de instalação de acesso Wi-Fi no Parque Verde. Que outro motivo haveria neste inquérito que não o de lançar o referido projecto.

Passo a explicar, aos mais leigos neste mundo das novas tecnologias, aquilo em que consiste o acesso Wi-Fi. O Wi-Fi mais não é que uma rede informática sem fios. Dois aparelhos (regra geral computadores ou telemóveis) equipados com a tecnologia Wi-Fi podem comunicar entre si com uso a ondas de rádio. Assim, torna-se possível a um computador, quando na área de cobertura de uma emissor/receptor Wi-Fi que tenha acesso à Internet, partilhar ou usar-se dessa ligação para aceder a conteúdos disponibilizados por este meio, que é a Internet. Resumindo, a instalação de um ponto de acesso Wi-Fi, ou Wi-Fi HotSpot, vai permitir a quem disponha de um computador portátil aceder à Internet.

Não vejo, no entanto, é qual será o interesse, ou qual será a mais valia, da instalação de um Wi-Fi HotSpot no Parque Verde de Vale de Açores. Não quero por isto vir a dizer que sou contra a evolução tecnológica, ou contra a criação de pontos livres de acesso a essa enorme, ainda que absolutamente desregrada, enciclopédia que é a Internet.
Quem poderá de facto beneficiar dessa instalação e com que fins beneficiará dessa ligação ao mundo assim potenciada.

Ao pensarmos num Wi-Fi HotSpot no meio de um Parque Verde vem-nos a imagem daquela ideia romântica de podermos estar a trabalhar com o computador no meio da natureza. Pois, mas é tão só do que se trata essa ideia. Num concelho como o de Mortágua não devem ser muitos os profissionais que se possam dar ao luxo de praticar este tipo de trabalho. Até porque o tele-trabalho (ou trabalho à distância) não é praticado senão nos grandes centros urbanos, e ainda assim numa ínfima escala. Isto deve-se ao facto de o que o trabalhos que cada um vai desenvolvendo tendo o seu computador e a Internet como ferramenta necessita quase sempre de apoio de manuais, dossiers, papeis e notas várias que não carregamos no nosso computador nem estarão disponíveis na Internet.

Sobra assim um outro grande grupo de potenciais utilizadores da tecnologia disponibilizada por este HotSpot. E este grupo será o dos jovens que de facto têm na Internet o grande veiculo para a sua comunicação. Mas qual poderá ser o real interesse destes jovens na utilização de uma acesso de banda larga à Internet de forma gratuita e não vigiada. É minha opinião que o principal apelo à adesão dos jovens a este projecto residirá numa fonte sem custos e ilimitada de música, filmes, jogos e várias outras formas de entretenimento. Porque, mais uma vez, a utilização da Internet como ferramenta de apoio à elaboração de trabalhos escolares carece sempre do apoio de vários suportes físicos que não podes ser encontrados no espaço em questão.

Associado à quase ausência de outras motivações que não as lúdicas para a utilização deste espaço temos o facto de este ser uma área totalmente aberta, e assim exposta às agruras da natureza durante o ano todo. Durante metade do ano a quantidade de horas de sol remete a utilização do parque para os fins-de-semana, e isto nos dias em que não chover ou em que o frio não torne impossível a permanência no local. De tempo ideal restam-nos 3 ou 4 meses de Verão. Ainda assim o excessivo calor do período da tarde, em nada é convidativo à frequência do parque, para já não falar que a utilização dos monitores dos aparelhos informáticos em ambientes de muita luminosidade se torna quase impossível.

Podemos, por último, referir o quão “fora de mão” fica o Parque Verde para uma deslocação natural.

Ao invés do investimento que será feito no Parque Verde, porque não criar uma rede de HotSpot’s nos edifícios públicos do concelho. Em locais para os quais já seja natural o deslocar das pessoas durante todo o ano. Assim, o executivo deveria considerar a instalação de HotSpot’s não no Parque Verde, que tão avidamente quer promover como jóia da coroa, mas sim no Centro de Animação Cultural, no Complexo Piscinas – Pavilhão Municipal, no Mercado Municipal e na Biblioteca Municipal e jardins adjacentes. De referir também que para além da disponibilização de um acesso à Internet, uma rede Wi-Fi pode disponibilizar o acesso a informação que esteja guardada localmente. Por exemplo, na eventualidade de realização de uma palestra no Centro de Animação Cultural, o HotSpot aí existente poderia fornecer também acesso ao um conjunto de documentos e dados (em suporte informático) que estejam relacionados com o tema do encontro. Assim, para além de assistir à exposição de debate de conclusões, o participante poderia ter acesso aos documentos em que se basearam as opiniões proferidas.

Para além deste trabalho deve, a Câmara Municipal, exercer pressão junto da Portugal Telecom para a disponibilização do serviço ADSL por todo o concelho, pois continuam a haver localidades onde este serviço não está acessível. E é preciso não esquecer que os Wi-Fi HotSpot’s só beneficiam aqueles que possuem um computador portátil. Os detentores de um modesto DeskTop estão limitados à sua secretária em casa.

Por outro lado, acompanhando o anuncio de instalação do serviço ADSL em todas as escolas primárias do concelho, seria talvez boa ideia garantir que os professores das mais diversas escolas possuem as competências básicas em tecnologias de informação para garantir uma utilização proveitosa da Internet por parte dos alunos. A criação de bons hábitos de utilização da Internet deve comer nas camadas mais jovens, por fim a evitar o fenómeno a que pude assistir enquanto monitor no Espaço Internet de Mortágua, que é o decalque absoluto de textos encontrados numa qualquer página da Internet para trabalhos a apresentar na escola. A capacidade de proceder a uma triagem da informação que se encontra com base num objectivo para um trabalho é essencial para um bom uso da Internet. E só com um corpo docente bem preparado poderemos ter essa boa prática como objectivo.

Pode ainda referir-se que não só de infra-estruturas se faz a Sociedade de Informação. Num tempo em praticamente todo o trabalho administrativo é feito com recurso a computadores, podemos afirmar que a produção de documentação em suporte informático é quase natural, se não inevitável. Aproveito para lançar daqui um repto à Administração Autárquica para que seja mais célere na disponibilização de documentos tão regulares como as actas das reuniões de câmara, ou tão únicos como o são estudos e relatórios elaborados pelos mais diversos serviços da Câmara Municipal ou por entidades por esta contratadas.

Como última achega, sugerir também ao executivo autárquico a introdução de um fórum no site da autarquia onde possam ser debatidos os temas relacionados com o concelho. Um espaço onde, mediante um registo prévio, todos os que se interessem possam participar com a sua opinião e visão sobre as questões concelhias.



publicado por Mário Lobo às 20:57
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