A Palavra Livre de Mortágua

Segunda-feira, 28 de Junho de 2010
Até Amanhã, Camarada!

Fomos recentemente privados da presença desse génio maior da Literatura Portuguesa e Mundial que é o José Saramago.

Muito se disse, se diz e se dirá sobre o homem e o seu génio, sobre a sua obra, sobre o seu legado. Mas não é isso que me leva a escrever estas palavras. Sou, no entanto, certo que a sua obra é duma dimensão e conteúdos fabulosos.

Mas este escritor português, oriundo do Alentejo era e foi até ao fim um Comunista. Sobre isso alguns dos que tecem laudas às suas obras pouco ou nada versarão. Tentando dividir o indivisível. Pois se era o homem que escrevia era também o mesmo homem que era Comunista. Querer falar da obra de José Saramago sem querer admitir a sua visão duma sociedade diferente é a mesma coisa que dizer que se gosta de ovos e só lhe comer a clara. O núcleo, o coração, é que dá forma e sustento à "embalagem", da mesma forma que é a gema que suporta em seu torno a clara.

Não escrevia porque era Comunista, porque nem todos os Comunistas escrevem. Não ganhou o Nobel por ser Comunista, porque nem todos os Comunistas ganham. Mas se escrevia o escrevia e da forma que o escrevia isso sim era por ser Comunista. Tanto colocava a sua condição de Comunista à frente da de escritor que o disse, aquando da homenagem do Partido Comunista Português no Centro de Trabalho do Edifício Vitória após a atribuição do Prémio Nobel: «Há alguns anos atrás, quando o meu nome começou a aparecer, achei por bem deixar claro uma questão, escrita para não haver dúvidas: se a condição para ganhar o Prémio Nobel for renunciar às minhas condições políticas, eu renunciarei ao Prémio. Hoje posso dizer que para ganhar o Prémio não precisei de deixar de ser comunista.»

Mas não só ele se considerava Comunista, outros também assim o intitulavam, ainda que por escárnio, como podemos ver na opinião do L'Osservatore Romano (órgão central do Vaticano) após a atribuição do Nobel, justificando essa escolha como sendo política: «continua a ser um comunista inveterado». Esta atitude era substanciada pela forma acutilante como Saramago criticava alguns dos "valores" da Igreja. O Envagelho Segundo Jesus Cristo, O Memorial do Convento e por fim Caim são precisamente objectos dessa acutilância.

Mas não era contra a Fé dos Homens que escrevia Saramago, antes contra o preconceito e as injustiças da sociedade. Contra os oportunismos, que ataca e põe a nu quando, no Ensaio Sobre a Cegueira, reduz todo a população à igualdade da cegueira. Sendo todos cegos, todos iguais portanto, haverá os que se tentarão sempre aproveitar dos demais. Que se organizarão para tornar seu o que os outros trabalharam para ganhar.

Aos que julgam, e aos que dirão, que para o fim se vinha afastando já da ideologia Comunista mantendo-se militante do que era também o seu Partido só por uma questão de cortesia deixo uma passagem de Caim onde é criticada a estratificação da nossa sociedade: «Discreto, como a foragido convém, caim não se aproximou para lhe desejar as melhoras da sua saúde, afinal, este patrão e este empregado nem tinham chegado a conhecer-se, é o mau que tem a divisão em classes, cada um no seu lugar, se possível onde nasceu, assim não haverá nenhuma maneira de fazer amizades entre oriundos dos diversos mundos.». Ou ainda no mesmo livro, sobre a imagem duma sociedade patriarcal tão querida ao regime que ele ajudou a derrubar: «Estava surpreendida consigo mesma, com a liberdade com que tinha respondido ao marido, sem temor, sem ter de escolher as palavras, dizendo simplesmente o que, na sua opinião, o caso justificava. Era como se dentro de si habitasse uma outra mulher, com nula dependência do senhor ou de um esposo por ele designado (...)».

Mas esta condição de Comunista desagrada a muitos que não conseguem ver para além dos rótulos que colocaram nos outros. Desagrada ao Presidente da República, diria ao nosso Presidente, ao Presidente dos Portugueses, de Todos os Portugueses, mas parece que não é Presidente dos Portugueses Comunistas.

Preferiam que fosse só escritor, sem essa alma vermelha que o tinge: é bom, mas é Comunista.

Era Comunista, e era bom!

Até Amanhã, Camarada!


sinto-me:

publicado por Mário Lobo às 00:00
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Quinta-feira, 22 de Abril de 2010
25 de Abril Sempre!.. Sempre!?

A 25 de Abril de 1974 o Movimento das Forças Armadas (MFA)  iniciava, a partir da Escola Prática de Cavalaria em Santarém, um golpe militar que levaria ao derrubar da Ditadura Fascista que oprimiu Portugal durante 48 longos anos. Com o fim da Ditadura Salazarista via também fim um sem número de atrocidades levadas a cabo por um regime tirânico e opressor.

Durante este quase meio século muitos foram os que lutaram contra a Ditadura e pagaram por isso com a sua própria vida. Muitos foram os que ficaram privados de uma vida “normal” por escolherem dedicar-se de corpo e alma a esta causa. Tão longa e tão dura foi a Resistência Anti-Fascista que deu aso a que seja Português o jornal clandestino mais tempo publicado  de forma regular na mais completa clandestinidade, em qualquer país do mundo: O Jornal Avante! Perseguidos pela Polícia Internacional de Defesa do Estado/Direcção Geral de Segurança nunca estes Homens e Mulheres recusaram à tarefa que abraçaram com tanta dedicação: combater a Ditadura Fascista de António Oliveira Salazar. Da vida destes Homens e Mulheres, dos sacrifícios e das provações que sofreram podemos ler no livro “Até Amanhã Camaradas!” de Manuel Tiago, recentemente adaptado a mini-série televisiva.

Se foi o Movimento das Forças Armadas que derrubou na prática o regime, foi a longa resistência destes ser humanos excepcionais durante a longa noite fascista que permitiu criar condições e força de revolta suficiente para o fim da tão amenamente chamado Estado Novo.

Mas a Revolução fez-se. E, como diz o poeta: “Valeu a pena? Valeu pois!”.

Valeu a pena porque se mostrou que se podia viver numa sociedade melhor sem opressores nem oprimidos. Valeu a pena porque se acabou com uma inconsequente “Guerra Colonial” por onde passaram centenas de milhares de jovens portugueses. Valeu a pena porque deu ao Povo a possibilidade de escolher livremente o seu destino. Valeu a pena porque se mostrou que não interessa o quão fundo seja o buraco em que nos querem meter, nós saberemos sempre sair de lá vitoriosos.

Todos esses Homens que lutaram tão arduamente contra a tirania Fascista devem ser lembrados e homenageados. O dia dessa homenagem é o dia 25 de Abril. O dia, que sem saber quando, sempre acreditaram que chegaria. E que chegou.

Foi Abril que abriu as portas a um Poder Local eleito, representativo das aspirações populares. E é esse Poder Local que, em Mortágua, nega aos Heróis de Abril a homenagem que eles merecem.

Em Mortágua, uma vez mais este ano, já não se celebra Abril. Talvez porque em Mortágua já não se pratique Abril.

Esses valores fundamentais duma sociedade de todos e para todos, de “abrir o caminho para uma sociedade socialista” como diz a Constituição de Abril, são de mais em mais esquecidos.

Fala-se na “possibilidade de participar e intervir” mas esquecem-se que essa participação e intervenção só é possível se por parte do Poder Local houver abertura para isso. Se aceitarem de todos, e não só dos que lhes interessam, as opiniões e críticas que venham a ser emitidas.

O Concelho, tal como Abril, é de todos. E, mais importante ainda, para todos. A consolidação duma coqueluche oligárquica em nada é concordante com Abril. Talvez por isso, por Mortágua, não se comemore esse dia maior para a nossa Democracia. Para que outros, ao acordar da dormência a que foram vetados, se lembrem que não foi para isto que naquela madrugada de 1974 fizemos Abril.

25 de Abril Sempre? SEMPRE!!!


sinto-me:

publicado por Mário Lobo às 12:00
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